Quando já não pertencemos inteiramente a lugar nenhum

Viver noutro país pode significar descobrir que já não somos exatamente quem éramos quando partimos, mas ainda não sabemos inteiramente quem nos tornámos.

Neste artigo

Estar longe da família, dos amigos, dos lugares e das referências culturais que fizeram parte da nossa história é um dos desafios de quem decide viver noutro país.

Quando partimos, levamos connosco a expectativa de construir uma nova vida. Pensamos no trabalho, na casa, nas oportunidades e em tudo aquilo que desejamos encontrar. Mas nem sempre nos preparamos para uma das experiências mais difíceis da emigração: a sensação de já não sabermos inteiramente a que lugar pertencemos.

Desde que me mudei para Portugal, muitas coisas aconteceram no Brasil sem que eu estivesse presente. Sobrinhos nasceram, amigos casaram-se, os Natais em família aconteceram. A vida continuou, como seria natural, mas continuou sem mim.

E, quando regressei, houve momentos em que me senti muito mais uma visitante do que alguém que fazia parte daquela história.

Talvez esta seja uma das dores menos faladas de quem vive longe: perceber que a distância não interrompe apenas a nossa participação na vida de quem amamos. Ela também transforma os lugares que ocupávamos e a forma como nos reconhecemos neles.

Entre o lugar de onde vim e o lugar onde estou

Muitas pessoas que vivem fora do seu país descrevem uma experiência semelhante. Não se sentem inteiramente pertencentes ao lugar onde vivem, mas também percebem que já não se encaixam da mesma maneira no país de origem.

É como se estivéssemos permanentemente entre dois lugares: aquele que conhecemos e aquele que estamos a aprender a conhecer.

Nesses momentos, podemos confundir duas perguntas que, embora estejam relacionadas, não são a mesma coisa: quem somos e de onde viemos.

As nossas raízes são fundamentais. A família, a língua, os costumes, as experiências e os vínculos que construímos participam na formação de quem somos. São referências que nos acompanham, mesmo quando estamos fisicamente distantes.

Mas não nos reduzimos às nossas raízes.

Continuamos a construir-nos a partir dos encontros, das experiências, das escolhas e das relações que estabelecemos ao longo da vida. Mudar de país também significa entrar em contacto com outras formas de viver e, inevitavelmente, permitir que algumas dessas experiências nos transformem.

O desafio está em reconhecer essa transformação sem sentir que precisamos de abandonar quem fomos.

A saudade de quem éramos

Por vezes, a saudade não é apenas da família, dos amigos ou dos lugares. É também da pessoa que éramos naquele contexto.

Sentimos falta da espontaneidade de conhecer as regras sociais sem precisar de pensar nelas, da familiaridade com os hábitos quotidianos e da sensação de sermos compreendidos sem termos de explicar tanto.

Num país novo, até as situações mais simples podem exigir esforço. Interpretar códigos sociais, compreender o humor, adaptar-se a outras formas de comunicação e construir novas relações pede tempo e disponibilidade emocional.

E existe ainda uma dimensão mais silenciosa: a de perceber que estamos a mudar enquanto as pessoas que amamos também mudam.

A distância não congela a vida de ninguém. Quando voltamos, podemos descobrir que já não somos os mesmos e que as pessoas que deixámos também não são.

Talvez seja necessário fazer o luto de algumas formas de pertença, sem que isso signifique perder o amor pelos lugares e pelas pessoas que nos constituíram.

Construir novos laços sem apagar os antigos

Ao longo da minha experiência em Portugal, construí novos laços familiares, sociais e profissionais. Esses vínculos não substituíram os anteriores. Somaram-se a eles.

Os laços que ficaram no Brasil continuam a ser importantes, mas foram sendo ressignificados. Aprendi, aos poucos, a transitar entre os dois países e a reconhecer que a transformação das relações não significa necessariamente que elas se tenham tornado piores. Tornaram-se diferentes.

Este processo exige que deixemos de esperar que tudo permaneça exatamente como era antes da partida. Exige também que nos permitamos viver o presente, conhecer pessoas, criar intimidade com novos lugares e construir memórias que não existiriam se não tivéssemos partido.

Por vezes, ficamos tão ligados àquilo que perdemos que temos dificuldade em reconhecer aquilo que estamos a ganhar.

E não se trata de escolher entre o passado e o presente. Trata-se de compreender que podemos preservar a nossa história e, ao mesmo tempo, continuar a escrever outras partes dela.

E se o vazio também puder ser um espaço de descoberta?

Nem sempre conseguimos transformar a solidão em crescimento imediatamente. Há momentos em que a saudade pesa, a adaptação cansa e o sentimento de não pertencimento parece ocupar tudo.

Não precisamos de romantizar essas dificuldades nem de tratar todo o sofrimento como uma oportunidade.

Mas podemos perguntar-nos o que este período da nossa vida nos está a permitir descobrir sobre nós.

“Quem sou eu para além dos papéis que desempenhava no meu país? Que relações desejo construir? Que partes da minha identidade continuam presentes e quais estão a transformar-se? O que posso aprender com a cultura em que vivo sem precisar de rejeitar a minha própria história?”

Talvez a experiência de viver fora nos convide a reconhecer que a identidade não é algo terminado. Estamos permanentemente em construção, e as novas experiências também passam a fazer parte de quem somos.

Se fechar ao novo, resistir a qualquer mudança ou exigir que a vida atual reproduza exatamente a vida que deixámos pode dificultar a adaptação. Ao mesmo tempo, respeitar o nosso ritmo e reconhecer a dor da distância são partes importantes desse processo.

Não existe uma única forma de viver a experiência de expatriado, nem um prazo universal para nos sentirmos em casa.

Se a tristeza, a ansiedade ou a sensação de vazio se tornarem difíceis de suportar, procurar ajuda psicológica pode ser uma forma de encontrar apoio para atravessar esta etapa.

Talvez, com o tempo, descubramos que pertencer não significa necessariamente escolher um único lugar.

Pode significar reconhecer as nossas raízes, acolher as transformações que vivemos e permitir que novos vínculos também façam parte da nossa história.

Não precisamos de deixar de ser quem fomos para nos tornarmos quem somos. Precisamos de nos permitir continuar a ser.

Sente-se dividido(a) entre o lugar de onde veio e o lugar onde está?

Atravessar o luto migratório e a sensação de não pertencimento não precisa ser uma jornada solitária. Agende sua sessão com Inês Cristina Miranda Mata Cunha da Silva e sinta o acolhimento de falar sobre a sua travessia na sua língua com quem fundou a Ondivan para estar ao seu lado.

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