Quando decidimos viver noutro país, costumamos preparar-nos para muitas coisas. Pensamos na documentação, na casa, no trabalho, no idioma, no custo de vida e nas mudanças que serão necessárias para construir uma nova rotina.
Mas será que nos preparamos para aquilo que acontece quando começamos a relacionar-nos intimamente com alguém que cresceu numa cultura diferente da nossa?
A interculturalidade atravessa muito mais do que a língua que falamos, os alimentos que comemos ou os hábitos que adquirimos. Ela também está presente na forma como aprendemos a amar, a demonstrar carinho, a lidar com as diferenças e a expressar aquilo que sentimos.
E é precisamente na intimidade que algumas dessas diferenças podem tornar-se mais evidentes.
Aprendemos a amar antes de sabermos o que é o amor
Cada pessoa chega a uma relação trazendo uma história. Aprendemos a relacionar-nos a partir da família em que crescemos, das experiências que vivemos, dos vínculos que construímos e do contexto cultural em que fomos educados.
Para algumas pessoas, amar significa estar presente, conversar sobre tudo e demonstrar afeto verbalmente. Para outras, o amor manifesta-se sobretudo através de gestos práticos, da responsabilidade, da proteção ou da capacidade de cuidar sem precisar de dizer muito.
Há quem considere natural conversar imediatamente depois de uma discussão. Há quem precise de silêncio e de tempo para organizar os pensamentos antes de conseguir falar.
Nenhuma destas formas, por si só, significa amar mais ou amar menos. São maneiras de nos relacionarmos que foram sendo construídas ao longo da vida.
Quando duas pessoas de culturas diferentes se encontram, podem descobrir que aquilo que cada uma considera evidente não é necessariamente compreendido da mesma maneira pela outra.
Quando aquilo que é normal para mim não é normal para ti
Imagine um casal em que uma das pessoas considera importante visitar a família frequentemente, partilhar decisões e manter uma presença constante na vida dos familiares. A outra cresceu num contexto em que a autonomia e a privacidade do casal ocupam um lugar central.
Uma pode interpretar a distância da família como falta de afeto. A outra pode sentir que a proximidade excessiva representa uma invasão do espaço pessoal.
Pensemos também nas demonstrações de carinho. Para uma pessoa, tocar, abraçar e dizer palavras afetuosas pode ser essencial para se sentir amada. Para outra, o cuidado pode manifestar-se através de pequenas tarefas, da estabilidade e da disponibilidade nos momentos difíceis.
Até a maneira de discutir pode adquirir significados diferentes. Uma pessoa pode entender a conversa imediata como uma tentativa de resolver o problema. A outra pode precisar de se afastar temporariamente para evitar dizer algo de que se arrependa.
Nestes encontros, o que está em causa nem sempre é a intenção de magoar ou rejeitar. Por vezes, são duas formas distintas de interpretar o mesmo comportamento.
“O que para mim significa cuidado pode ser vivido pelo outro como controlo. O que para mim representa autonomia pode ser sentido pelo outro como distância.”
É neste espaço entre a intenção e a interpretação que muitos conflitos começam a ganhar força.
O problema de acreditar que a nossa forma é a forma certa
Os conflitos tornam-se particularmente difíceis quando cada pessoa toma a sua própria experiência como referência absoluta para avaliar o comportamento do parceiro.
Se aprendi que amar é conversar, posso interpretar o silêncio como desinteresse. Se aprendi que amar é respeitar o espaço do outro, posso sentir que a insistência numa conversa é uma forma de pressão.
Quando não reconhecemos que as nossas referências também foram construídas culturalmente, corremos o risco de transformar diferenças em defeitos. Em vez de procurarmos compreender o outro, começamos a tentar corrigi-lo.
A relação passa, então, a ser um espaço de disputa: quem tem razão, quem está a fazer o esforço maior, quem deveria mudar e qual das duas maneiras de viver é a mais adequada.
Mas uma relação intercultural não precisa de se transformar numa disputa entre culturas.
Isso não significa que todas as diferenças devam ser aceites sem questionamento. Existem comportamentos que provocam sofrimento, necessidades que precisam de ser respeitadas e limites que devem ser negociados. Compreender o contexto cultural de alguém não significa justificar tudo o que essa pessoa faz.
Significa criar condições para distinguir aquilo que é uma diferença de referências daquilo que é uma dificuldade real na relação.
Até a quantidade de banhos pode revelar diferenças culturais
Um exemplo aparentemente simples, mas que gerou muitas conversas nas redes sociais, foi a diferença na quantidade de banhos que as pessoas tomam por dia.
Aquilo que para algumas pessoas é um hábito absolutamente natural, tomar banho mais de uma vez por dia, pode parecer excessivo para quem cresceu num contexto em que um banho diário é considerado suficiente. Para uns, a frequência dos banhos está associada à sensação de limpeza, ao clima e ao conforto. Para outros, os hábitos podem ser diferentes, sem que isso signifique necessariamente desleixo ou falta de higiene.
O que torna este exemplo interessante não é determinar quem tem razão, mas perceber a rapidez com que transformamos os nossos próprios hábitos em critérios para avaliar o comportamento dos outros.
E se conseguimos ter interpretações tão diferentes sobre algo tão quotidiano como tomar banho, o que acontece quando essas diferenças entram na intimidade de uma relação?
Quando falamos de higiene, alimentação, organização da casa ou pontualidade, podemos até rir das diferenças. Mas, quando o assunto é a relação com a família, a demonstração de afeto, a divisão das responsabilidades ou a maneira de lidar com os conflitos, aquilo que parecia apenas uma diferença de hábitos pode adquirir um significado emocional muito maior.
A questão deixa de ser apenas o que cada pessoa faz e passa a ser aquilo que esse comportamento representa para quem está ao seu lado.
O desafio da interculturalidade começa quando percebemos que aquilo que consideramos normal não é necessariamente universal, e que o nosso modo de viver não é a única referência possível para compreender o outro.
O encontro com o outro também nos confronta connosco
Relacionar-nos com alguém de outra cultura pode levar-nos a questionar certezas que nunca tínhamos sentido necessidade de rever.
“Por que razão considero que determinada forma de demonstrar afeto é a mais adequada? De onde vem a minha expectativa sobre a divisão das tarefas domésticas? O que aprendi sobre o papel de cada pessoa numa relação? Como entendo a autonomia, o compromisso, a família e a intimidade?”
Estas perguntas não servem para desvalorizar a nossa história. Pelo contrário, permitem-nos reconhecê-la e compreender de que forma ela participa nas nossas escolhas.
A interculturalidade pode revelar que algumas das nossas convicções, embora importantes para nós, não são verdades universais. São referências que aprendemos e que podem ser revistas quando entramos em contacto com outras formas de viver.
Esse processo exige disponibilidade para escutar, curiosidade pelo mundo do outro e capacidade para reconhecer que não precisamos de compreender tudo imediatamente.
O desafio não está em deixar de ser quem somos, mas em perceber como podemos construir uma relação com alguém que não vive, sente ou interpreta o mundo exatamente como nós.
O lugar da terapia de casal intercultural
Na terapia de casal intercultural, o objetivo não é decidir qual das culturas está certa, nem estabelecer quem deve adaptar-se à maneira de viver do outro.
O trabalho terapêutico procura compreender como cada pessoa construiu as suas referências, que significados atribui aos comportamentos do parceiro e de que forma essas interpretações participam nos conflitos do casal.
Muitas vezes, é necessário ajudar cada pessoa a reconhecer as próprias necessidades e a expressá-las de forma que o outro possa compreender. Noutras situações, é importante aprender a escutar sem responder imediatamente, negociar expectativas e construir acordos que façam sentido para ambos.
A terapia também permite explorar as assimetrias que podem existir na relação, os preconceitos, as dificuldades de adaptação e as situações em que uma pessoa sente que precisa de renunciar a partes importantes da sua identidade para manter o vínculo.
Não se trata de apagar diferenças para que a relação funcione. Trata-se de criar um espaço em que as diferenças possam ser reconhecidas, discutidas e integradas sem que uma das pessoas tenha de deixar de existir para que a outra se sinta confortável.
Duas histórias podem construir uma história em comum
Talvez uma das aprendizagens mais importantes dos relacionamentos interculturais seja perceber que amar alguém não significa compreender espontaneamente tudo aquilo que essa pessoa sente ou necessita.
O amor não nos torna automaticamente capazes de interpretar o mundo do outro. A intimidade constrói-se também através das perguntas que fazemos, das conversas difíceis que conseguimos sustentar e da disponibilidade para rever aquilo que julgávamos saber.
Duas pessoas não precisam de ter a mesma história, partilhar todas as referências ou demonstrar afeto da mesma maneira para construírem uma relação saudável.
Precisam, no entanto, de encontrar formas de comunicar, respeitar limites, negociar expectativas e cuidar do vínculo sem transformar as diferenças numa luta permanente.
Porque, no fim, a questão talvez não seja descobrir qual é a maneira certa de amar.
Talvez seja compreender como aprendemos a amar, reconhecer o que cada um traz para a relação e descobrir o que podemos construir juntos.
Duas histórias diferentes também podem construir uma história em comum, desde que haja espaço para ambas.